
Oi, curiosos de pele!
Hoje o tema não é apenas pele. É infância. É identidade. É o que estamos ensinando nossas crianças a enxergar no espelho.
Rotinas com 10 passos antes da escola: essa já é a realidade de muitas crianças de 6, 7, 8 anos.
Skincare completo, maquiagem, cabelo perfeitamente modelado… tudo antes da primeira aula do dia.
E o que chama atenção?
Nenhum brinquedo no banheiro.
Nenhuma pressa para brincar.
Pouco ou nenhum resquício de infância nesses rituais diários.
Existe uma performance.
Uma busca por uma imagem específica.
A repetição de modelos vistos nas redes sociais.
Em consultório, não é raro ver crianças menores de 10 anos com seus próprios celulares, filmando e compartilhando algo íntimo como uma consulta médica. O mostrar a rotina, muitas vezes, tem prioridade sobre viver o momento.
É como assistir ao show do seu artista favorito apenas pela tela do celular: você estava lá, mas não estava presente. O virtual cria a sensação de proximidade e, ao mesmo tempo, afasta da realidade.
Do ponto de vista dermatológico, isso importa e muito.
A pele infantil possui barreira cutânea imatura, maior permeabilidade e um sistema imunológico ainda em desenvolvimento. Ou seja: absorve mais e inflama mais.
O uso precoce e excessivo de cosméticos inadequados (com fragrâncias, conservantes e ativos desnecessários) aumenta o risco de dermatites, sensibilizações e alergias que podem persistir na vida adulta.
Encontramos comedões em peles que não deveriam tê-los.
Cabelos frágeis.
Couros cabeludos irritados.
Sinais claros de dano térmico excessivo em crianças que acreditam que precisam performar beleza todos os dias.
Isso não é estética. É saúde.
A antecipação da preocupação com imagem corporal, sem maturidade emocional correspondente, tem repercussões profundas. Crianças passam a enxergar defeitos que não existem. O sentimento de inadequação abre espaço para mais rituais, mais produtos, mais procedimentos.
O corpo ainda é infantil, mas a leitura social se torna adultizada.
E os distúrbios de imagem não param na pele ou no cabelo. Eles alcançam o controle do peso, a restrição alimentar, a preocupação estética precoce — criando terreno fértil para transtornos de imagem e alimentares.
Vemos diariamente casos em que a pele tenta colocar limite onde o ambiente não colocou.
Valores se invertem.
A imagem passa a vir antes da identidade.
E crianças aprendem, cedo demais, a se definir pelo olhar do outro.
Na Dermatologia, é claro:
A pele fala.
O cabelo fala.
O corpo fala.
Em um cenário de adultização da infância, até o organismo encontra uma forma de alertar. O problema é que, muitas vezes, esses sinais são ignorados.
Porque nem toda dermatite começa na pele.
Algumas começam na pressa de crescer.
Até o próximo tema, curiosos 🤍
Beijos da cirurgiã que se apaixonou pela Dermato, a favorita de vocês.